Portogallo

Portugueses pouparam mais 9,5 mil milhões de euros nos últimos doze meses

PÚBLICO - 1 ora 8 min fa
Contas nacionais do primeiro trimestre revelam efeitos persistentes da pandemia: famílias a pouparem mais, Estado com défices mais elevados
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Perdas de mandato, demissões e inibições. Quantos foram penalizados no controlo da riqueza

PÚBLICO - 1 ora 9 min fa
Os políticos e titulares de altos cargos públicos têm de entregar uma declaração de rendimento e património no TC. Falhas são penalizadas com perdas de mandato, demissões e inibições para o exercício do cargo.
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Da protecção do denunciante de crimes de corrupção à ocultação de riqueza: há 25 propostas em debate

PÚBLICO - 1 ora 9 min fa
Se forem viabilizadas, as propostas vão ser trabalhadas nos próximos meses na especialidade.
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“A situação de ocultação de património é difícil de comprovar”, admite Ministério Público

PÚBLICO - 1 ora 10 min fa
Milhares de dossiers no Tribunal Constitucional, centenas de processos de fiscalização de declarações de políticos sobre rendimento e património e um total de 12 funcionários para cumprir uma lei que pretendeu penalizar a ocultação de património.
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Cartas ao director

PÚBLICO - 2 ore 16 min fa
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Cimeira Europeia. Orbán encostado às cordas do Estado de Direito, Rutte perguntou-lhe se quer sair

Expresso - PT - 3 ore 12 min fa
Vários líderes europeus confrontaram o primeiro-ministro húngaro com a nova lei que, para a maioria, discrimina a comunidade LGBTI. O tema não estava oficialmente na agenda do Conselho Europeu mas passou a estar, numa discussão rara sobre política interna de um Estado-membro e sobre o Estado de Direito, com muita tensão e emoções à mistura
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A pandemia está a acelerar a automação dos empregos

O Jornal Económico - 5 ore 35 min fa

“A Automação tem uma implementação rápida durante as recessões económicas, e permanecem para além delas” – Daron Acemoglu, Economista IMT

Durante o último ano, sobretudo nas alturas de maiores restrições por virtude da pandemia e que forçaram ao confinamento, trabalhar a partir de casa tronou-se um hábito incontornável para uma boa parte da população. Estas alterações trouxeram uma alteração da perceção tradicional sobre a dependência do trabalho relativamente ao local físico de trabalho – o escritório da empresa pode estender-se com teletrabalho, as escolas podem continuar a funcionar com soluções de ensino virtual, e a utilização digital para produtos de consumo (como supermercados), ou serviços (como consultas médicas) aumentou de forma significativa. À medida que esta transformação digital se for tornando mais permanente, muitos sectores irão adaptar-se a uma era de maior investimento em maior autonomia e flexibilidade do emprego, e também em sistemas de maior tecnologia nas linhas de produção. Ou seja, o Covid-19 pode ter espoletado um novo ciclo de automação que pode causar uma significativa perda de postos de trabalho tradicionais nos próximos anos. Esta transformação estrutural pós-covid, irá exigir também uma alteração profunda da forma como os programas de recuperação das economias afetadas vão ser aplicados.

 

A mudança de paradigma da sociedade industrial
As economias desenvolvidas têm vindo a registar um declínio nos empregos ligados à indústria devido ao à deslocalização da produção para locais com menores custos (sobretudo países emergentes), mas também devido às sucessivas vagas de automação industrial. Esta tendência agora está gradualmente a estender-se para muitos sectores de serviços, e uma alteração de comportamentos relativamente ao trabalho remoto tornou muitas áreas dentro dos serviços automatizáveis e transferíveis para deslocalização geográfica. A evolução da tecnologia tem vindo a acelerar de ritmo, num mundo onde o armazenamento de dados e a recolha de informação, variável vital para desenvolver automatismos com aplicações industriais, se encontra cada vez mais acessível. Ou seja, cada vez existe mais informação disponível (com os comportamentos dos consumidores a terem uma maior impressão digital) e os custos associados são cada vez mais baixos para maiores capacidades.

Um relatório da consultora Mckinsey (2017), apontou para a possibilidade de se perderem entre 400 a 800 milhões de postos de trabalho a nível global até 2030, pelo efeito de substituição provocada pela implementação de maior tecnologia de automação na atividade das empresas, na senda de uma maior eficiência operacional. Só nos Estados Unidos, a maior economia mundial, o efeito de substituição pode atingir até um terço dos postos de trabalho, algo entre os 40 e 70 milhões, que deverão ser extintos.

À cabeça os sectores com recurso intensivo a postos de trabalho menos qualificados são os que estão mais em risco (retalho, agrícola ou construção), mas existem também sectores tradicionais qualificados onde as mudanças podem ser significativas, como é o exemplo do sector financeiro ou segurador. Afinal, para além das possibilidades tecnológicas que permitem tornar o trabalho flexível e remoto, este é também um mundo onde os mercados emergentes já não olham apenas para a indústria como o único trampolim para crescer, e capitalizam nos avanços da tecnologia (que hoje é mais acessível e evoluída) para atrair para si, a deslocalização de funções nestes sectores mais tradicionais e onde podem ser mais competitivos no custo por hora de trabalho.

 

A pandemia acelerou processo de infraestruturação digital
Durante os últimos 12 meses as empresas foram forçadas a despir-se de preconceitos antigos e a vencer a inércia relativamente ao trabalho remoto, e implementaram avanços significativos em termos de solução de trabalho remoto e automação. Um estudo publico do CitiGPS (Tecnology at work 5.0) salienta que os avanços na tecnologia significaram que cerca de 52% dos EUA dos postos de trabalhos estão em condições de ser executados de forma remota. Estas alterações relativamente ao trabalho remoto criaram uma aceleração da criação de infraestrutura digital e que irá perdurar para além da pandemia, e alimentar maior automação. E estes podem ser alguns dos catalisadores:

i) As empresas poderão preferir investir mais em soluções de automação, do que voltar a recrutar para postos de trabalho – levando a destruição permanente de emprego. Esta foi já uma tendência que se verificou na Grande Recessão, e que poderá ganhar maior dimensão face ao potencial associado às recentes inovações feitas durante os confinamentos.

 

ii) A necessidade de proteger a empresa de futuros choques similares. O comércio on-line aumentou de forma significativa, mas mesmo assim em alguns países a pressão para que a linha de distribuição destes sectores fosse interrompida durante alturas críticas da pandemia existiu – pela concentração de trabalhadores nas instalações destas empresas. Na área de logística e armazéns ainda existem barreiras difíceis de transpor para automação, mas as crescentes soluções de inovação podem fazer desta fase, uma altura para os empresários reestruturarem as operações e protegerem o seu negócio.

 

iii) Os padrões de consumo dos consumidores podem sofrer alterações. Em primeiro lugar, porque é natural que algum hábito de consumo online tenha vindo para ficar – por exemplo, socializar em casa e pedir a refeição do restaurante preferido para ser entregue em casa, em vez da deslocação ao restaurante. Por outro lado, na primeira fase de recuperação pós pandemia os rendimentos das famílias deverão ser menores, levando a uma preferência por bens e serviços mais baratos – isto também se verificou na ressaca da crise de 2008, com as cadeias de fast-food a capitalizarem neste fator. A automação pode também ser uma resposta para que as empresas possam responder com produtos mais competitivos para um consumidor mais frágil, ou com padrões de consumo mais personalizados.

 

Um desafio para os governos e instituições: estimular a mudança e proteger emprego
A história tem demonstrado que não é líquido que os ciclos de transformação aportem destruição de postos de trabalho. Por exemplo, no princípio do século XX, cerca de 40% da população norte-americana trabalhava no setor primário, hoje em dia não chega a 2%, embora a maior economia mundial permaneça com taxas de desemprego baixas. Mais recentemente, na década de 80, a introdução dos computadores pessoais (PC) nas empresas, que era vista como ameaça, acabou por ser uma criadora líquida de emprego – entre postos trabalho perdidos e criados, a consultora Mckinsey no mesmo estudo citado acima sobre tecnologia e destruição de emprego, identificou um efeito positivo de 18,5 milhões de postos de trabalho associados à introdução do PC. Ou seja, o ciclo marcado pelas novas tecnologias destrói empregos, mas não necessariamente trabalho. As alterações de ciclo criam indústrias novas, e à medida que vão deixando as tecnologias existentes obsoletas, vão originando novas oportunidades.

Neste sentido, aceleração do processo de inovação digital pode por isso originar uma nova vaga de automação, o que significa que os empregos do futuro serão os que possam estar imunizados dos processos de mecanização industrial (e não só…), mas também da deslocalização de operações que a nova realidade do trabalho remoto vem colocar em cima da mesa. Isto significa, que os governos e instituições terão um papel importante para apoiar os cidadãos nesta disrupção social – e isto significa que incutir os incentivos fiscais necessários para criar o maior número de empregos possíveis provenientes das tendências da economia verde e digital. Olhando mais a médio prazo, as políticas públicas e estímulos precisam de se centrar em criar vantagens competitivas no que diz respeito à inovação e ao desenvolvimento de ecossistemas que sejam amigas do empreendedorismo nestes novos sectores.

 

Bottom’s up: A Europa e sobretudo, Portugal têm caminho para percorrer
A União Europeia tem vindo a encetar iniciativas que visam apostar na transição digital – é uma das 6 prioridades fundamentais da Comissão Europeia para a próxima década – com o objetivo de incentivar a transição para os objetivos de carbono zero, mas também para diminuir o diferencial de competitividade tecnológica que existe atualmente versus Estados Unidos e China. Em março, a Comissão Europeia publicou o “Compasso Digital Europeu” com objetivos concretos até 2030 para atingir – com quatro vetores relevantes: Infraestruturas, Competências, Transição digital no sector Empresarial e sector Público. E de acordo com estes critérios, de acordo com o relatório publicado em maio pelo Internacional Affairs Network “Portugal Digital” Portugal tem registado progressos sobretudo no que diz respeito ao sector público. No entanto, apresenta leituras fracas no que diz respeito a indicadores e empresariais e humanos, que mostram uma perca de capacidade de competir com os principais comparáveis de mercado – que fica evidenciado pelas sucessivas quedas nos últimos anos na generalidade dos rankings de digitalização, sendo inclusivamente ultrapassado pelos países que se juntaram à união europeia depois de 2004. Importa por isso, implementar medidas públicas que permitam não apenas aproveitar os Fundos Europeus no sentido de promover esta transição, mas também de quebrar o ciclo e criar uma economia verde e geradora de emprego sustentável para as próximas gerações.

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Os desafios do Grupo dos 42

O Jornal Económico - 5 ore 37 min fa

Um grupo de 42 grandes empresas a operar em Portugal formou uma nova associação, denominada Business Roundtable Portugal (BRP), que foi esta semana apresentada publicamente. A nova associação tem como objetivo propor medidas que contribuam para o crescimento económico sustentável do país e é liderada por Vasco de Mello e conta com personalidades como Cláudia Azevedo, António Rios Amorim, Nuno Amado e João Castelo Branco, entre outras.

A iniciativa é louvável, porque tudo o que contribua para o crescimento da nossa economia, para mais em moldes sustentáveis do ponto de vista social e ambiental, será positivo. Portugal não pode resignar-se a permanecer mais 20 anos na cauda da Europa em termos de crescimento económico, sob pena de o nosso modo de vida se tornar insustentável e de regredirmos como país, condenando as gerações futuras à pobreza e à emigração. Há que criar condições para que o país possa crescer, sem esquecer que quem cria riqueza não é o Estado ou a ‘bazuca’ europeia, mas os cidadãos e as empresas.

Porém, serão os líderes das 42 maiores empresas a operar em Portugal as pessoas mais indicadas para propor essas medidas? Sem colocar em causa as boas intenções, a competência, a noção de serviço público e o patriotismo das pessoas em questão, creio que o grupo tem três desafios pela frente que ditarão se cumprirá ou não a sua missão.

O primeiro tem a ver com a necessidade de clarificar a missão do BRP. A nova associação diz que não visa defender os interesses dos grupos que a compõem, mas sim propor medidas “a pensar em Portugal”. Porém, ninguém acredita que uma associação criada e financiada pelos 42 maiores grupos venha a propor medidas contrárias aos interesses dos seus associados, por exemplo em áreas como a fiscalidade. Seria preferível que a nova associação se assumisse abertamente como um grupo que defende os interesses das grandes empresas e a sua visão para o conjunto do país, que é tão legítima como a de qualquer outra corrente ou quadrante da sociedade portuguesa. Sem deixar de admitir que, embora o crescimento seja um desígnio nacional, os interesses das grandes empresas não se confundem com os do país, ou sequer com os das outras empresas.

O segundo desafio da BRP é tornar-se mais inclusiva e representativa, de maneira a poder apresentar soluções adequadas à realidade do país, mantendo ao mesmo tempo uma linha de atuação que a distinga da CIP e de outras confederações empresariais.

A BRP deixa de fora a esmagadora maioria do tecido empresarial nacional, com o argumento de que as 42 grandes empresas estarão mais habilitadas para propor soluções em três áreas – Pessoas, Empresas e Estado -, podendo servir de campos de teste para as medidas propostas. Porém, as grandes empresas não são as únicas a inovar, a internacionalizar-se, a apostar na qualificação ou a conhecer a fundo os problemas do aparelho do Estado. Há PME que têm muito a ensinar às grandes empresas nestes domínios. E os seus líderes são obrigados a enfrentar diariamente muitos problemas que, nos seus gabinetes confortáveis, os gestores do PSI20 nem sonham existir.

O terceiro desafio passa por garantir a eficácia da atuação da nova associação e vai além da questão óbvia de conseguir que, de facto, os associados se comprometam com o projeto e o façam avançar. É sobretudo um desafio político: independentemente do mérito das propostas, o problema da falta de crescimento económico não poderá ser resolvido pelos empresários, grandes ou pequenos, mas sim pelos governantes eleitos pelo povo, que são quem poderá fazer com que as reformas necessárias se tornem realidade. E qualquer Governo terá dificuldade em adotar propostas que sejam publicamente apresentadas pelas grandes empresas. Esperemos, porém, que o interesse nacional prevaleça sobre a demagogia reinante.

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Nem sequer vergonha

O Jornal Económico - 5 ore 39 min fa

1. A discussão em volta do combate ao crime de enriquecimento ilícito, indevido ou de ocultação de riqueza, como se queira designar, dos políticos e titulares de altos cargos públicos, mostra um PS e PSD feitos versão atual do Partido Regenerador (PR) e do Partido Progressista (PP) do final da monarquia.

A dado momento, esses dois partidos tinham como chefes Luciano de Castro (PP) e Hintze Ribeiro (PR) que eram, ao mesmo tempo, governador e vice-governador do Crédito Predial Português. Hoje, a desfaçatez não chega a tanto, foi delegada para uns patamares mais abaixo, mas continua a funcionar.

2 Como então, encontramos os mesmos nomes nos órgãos dos partidos, no Parlamento, nas empresas tuteladas pelo Estado e também naquelas que vivem dos favores das rendas e de outras sinecuras do Orçamento. Mudou pouco para que tudo continuasse como dantes – e é preciso lembrar que na monarquia também havia eleições para as Cortes.

O chamado rotativismo do final da monarquia tinha todos os vícios que podemos identificar no comportamento dos dois principais partidos da política nacional que têm alternado no exercício do Poder e bem expostos nos projetos de combate ao crime económico-financeiro e à corrupção que hoje vão ser discutidos na Assembleia da República.

3 As críticas que a Associação Sindical dos Juízes Portugueses fez ao PS e PSD a propósito das propostas que teoricamente visam combater a ocultação de riqueza indevida por parte de titulares de cargos políticos e públicos deveriam fazer corar de vergonha os líderes de ambos os partidos.

Quem olha de fora da política não tem dúvidas: PS e PSD estão subordinados à lógica de defenderem interesses e, neste caso, são suspeitos de arquitetar textos que na prática nada significam, que visam deixar tudo na mesma.
E, perante isto, não se vê qualquer sobressalto cívico, um arremedo de embaraço. Nada, apenas silêncio, descaro.

4 Esta luta por evitar que a classe dirigente, política e social seja escrutinada começou há 15 anos. Perante o engrossar do rumor público, a estratégia dos interesses económicos que vivem de corromper o Estado foi mandar redigir aos seus funcionários, em comissão de serviço nos partidos, propostas que fossem de choque direto ao texto da Constituição, vaca sagrada dos maiores conservadores portugueses.

Obviamente, os conselheiros do TC tinham de chumbar.

Fizeram-no por duas ou três vezes.

Foi assim que, a reboque, o PS conseguiu aprovar a atual Lei das Obrigações Declarativas, que não queria resolver, não resolve nem resolverá o que quer que seja neste âmbito.

5 Perante textos assim, veremos o que se irá passar hoje na Assembleia da República e, sobretudo, qual será o passo seguinte do Presidente da República, que desde há semanas tinha convocado os partidos para a necessária mudança. Estará ele conformado a ver-se desrespeitado pelos dois principais centros de negócio de Portugal?

Relembro o que se passou recentemente na alteração do Código dos Contratos Públicos (já depois de um primeiro veto presidencial!). No âmbito do PRR, todos os projetos têm de passar pelo Tribunal de Contas, mas da seguinte forma: acima de 750 mil euros é preciso visto prévio (também faltaria!…), abaixo desse montante vai tudo para apreciação mas com duas alíneas: na a) podem parar-se as obras; na b) quando a apreciação concomitante não for possível faz-se a posteriori, depois da obra feita. Ou seja, é concomitante mas pode não ser concomitante.

E assim funciona o regime.

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A improdutividade da banca

O Jornal Económico - 5 ore 41 min fa

1 – Fala-se de reformas antecipadas e de despedimentos na banca como se fala em mudar de camisa. Mas isso é mesmo uma inevitabilidade? É comum hoje encontrarmos filas nas caixas dos bancos ou nos balcões dos mesmos quando se quer tratar de assuntos burocráticos. Isto significa que o serviço ao cliente é pior. Em contraste, e basta falar-se com uma dúzia de trabalhadores bancários e não com sindicalistas, para perceber que o trabalho continua muito depois do horário contratado. Na banca nacional, afirmam as nossas fontes, é comum o serviço para além do horário e isso tem um nome: trabalho suplementar que na generalidade não é remunerado e não é tributado. Temos Segurança Social e Finanças defraudados. Muitos trabalhadores perguntam onde está a ACT.

Para as administrações dos bancos o cenário é diferente – e como já aqui escrevemos há bancos e bancos neste tipo de comportamento e nem todos se regem pela mesma bitola – porque precisam de despedir para equilibrar rácios e contas e o argumento é a alteração comportamental dos clientes e a evolução para o digital. No entanto, tudo não passa de uma falácia. Os bancos digitais existem e têm o seu tipo de clientes, têm as plataformas adequadas para esse trabalho, enquanto os balcões tradicionais continuam com o seu tipo de clientes e não fizeram a reengenharia dos processos. Aliás, os processos na banca são estupidamente improdutivos, e não será exagerado afirmar que estão ao nível do pior que nos aconteceu depois da nacionalização da banca. Efetivamente se alguém quer mudar de produto financeiro num banco português terá de assinar 37 documentos em nome da transparência e isto significa que um terço do trabalho do bancário é estúpido ou – se quisermos ser simpáticos – é trabalho improdutivo. A banca diz que é imposição do banco central e é em benefício do cliente quando este assina a indicar que percebeu o produto e está ciente dos riscos! É para rir perante a iliteracia do cidadão médio sobre a terminologia bancária e seguradora. Em abono da verdade estes papéis da burocracia são para defesa dos bancos porque se existissem há alguns anos possivelmente não haveria lesados do BES e do Banif.

A conclusão da história dos bancários é simples porque não está em causa o esforço no trabalho, nem as oportunidades de mercado para crescer, mas é mais simples mandar para a rua do que reestruturar processos. Faz lembrar a alegoria do moço de recados que subia sete andares para entragar as compras e no final do dia estava naturalmente cansado sem que ninguém lhe dissesse para subir de elevador. Enfim, estamos perante incompetência das administrações que os trabalhadores tentam tapar com serviço suplementar que foge aos impostos e às contribuições.

2 – Alguém gritou que Fernando Medina está a dar casas e o mercado agita-se. O país inteiro está a tentar colocar de pé o arrendamento acessível. Por Lisboa o IRHU parece ter sido um relativo fiasco e têm sido as Câmaras Municipais a gerir o processo. Com os proprietários a arrendarem às edilidades e estas, com autorização do senhorio, a sublocarem a inquilinos finais. Pelo meio a edilidade suporta a diferença de renda pois o projeto é criar uma renda acessível. Do lado dos senhorios ainda há dúvidas pois se no final dos contratos o proprietários não quiser renovar e o inquilino em sublocação não quiser sair, quem irá assumir a responsabilidade? E quando sai o sublocatário e deixa a casa destruída, quem irá pagar?

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Inflação e salários

O Jornal Económico - 5 ore 42 min fa

O vice-presidente do BCE, Luis de Guindos, reafirmou esta semana que o Banco Central continua a considerar a subida da inflação como transitória, mesmo que seja um fenómeno quase omnipresente. Não é totalmente claro se estamos perante uma convicção ou um desejo, mas é certamente a narrativa oficial. Importa destacar algo mais que de Guindos disse e que pode ser mais polémico: aconselhou a que os governos e as empresas não cedam à tentação de subir pensões e salários de forma automática, perante uma inflação mais alta em 2021 e que poderá chegar a 3% na Zona Euro. Caso contrário, o BCE poderá ser obrigado a tornar a sua política menos expansionista. Pode ser apenas uma ameaça, mas o recado fica dado.

Efetivamente, caso se trate de um fenómeno transitório, a subida de salários e pensões após apenas um ano de inflação implica que os países aumentem estruturalmente os seus gastos, pressionando ainda mais os já altos rácios de dívida e restringindo os seus limitados graus de liberdade na afetação da dívida pública. Também no caso das empresas, as subidas “automáticas” dificilmente serão revertidas e bastará que 2022 seja um ano de crescimento menos exuberante para que muitas empresas sejam incapazes de aguentar o novo nível salarial, originando desemprego. O mercado de trabalho deve ser isso mesmo – um mercado – mas a rigidez à baixa de remunerações raramente é tida em conta.

Finalmente, e talvez esta seja a maior preocupação de Luis de Guindos, a subida de salários e pensões teria o potencial de autoalimentar o fenómeno inflacionista, dificultando a vida ao BCE, governos e aos demais agentes económicos mais vulneráveis às altas de preços, potenciando o aumento da desigualdade e da coesão social.

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Minas & eleições

O Jornal Económico - 5 ore 43 min fa

As eleições autárquicas avizinham-se e o partido que governa Portugal toma posição em matérias que andou a ignorar mas que agora entende que terão obviamente relevância para a disputa eleitoral de outubro.

Bem a propósito disto, foram ouvidos recentemente no Parlamento, mais exatamente na Comissão Parlamentar do Ambiente, autarcas e entidades administrativas sobre um projeto de ampliação e fusão de concessões mineiras em Barcelos e em Viana do Castelo. Com os autarcas divididos – Viana do Castelo favorável, Barcelos desfavorável -e com a pressão parlamentar e dos cidadãos bem como um estudo de impacto ambiental condicionado, veio a Direção Geral de Energia e Geologia anunciar na audição no Parlamento, a redução em 46 hectares do projeto de fusão e ampliação das concessões mineiras em Viana do Castelo e Barcelos.

Também o Ministro do Ambiente e da Ação Climática garantiu agora, sobre a problemática local no Minho, que não haverá exploração de lítio na zona de Rede Natura 2000 da Serra d’Arga, no distrito de Viana do Castelo, embora as localizações nesta serra, façam parte do concurso, mas assumiu finalmente ter tomado a decisão de “retirar do mapa inicial” a zona da Serra d’Arga.

E sobre as portagens, após a aprovação no Parlamento, da ‘eliminação do Pórtico de Neiva’, na Estrada A28 que liga Viana do Castelo ao Porto, abriu logo uma discussão nacional, com o Conselho de Ministros a anunciar a redução em 50% nas portagens das ex-Scuts a vigorar a 1 de julho, dando assim seguimento à proposta do PSD, que foi aprovada pelo Parlamento no âmbito da Lei do Orçamento do Estado para 2021.

Já para não falar em avanços e recuos de retóricas, de demissões e nomeações na gestão do dossier das Águas do Alto Minho, em que todos ou quase todos, já tomaram a consciência de que a marca e empresa estão feridas de morte e a única solução viável é a reversão do modelo, pois o atual não serve as populações.

Pois estes são apenas alguns exemplos de como se gere atualmente o país, com o horizonte eleitoral autárquico de outubro próximo. Anuncia-se e ‘desanuncia-se’, e assiste-se ao triste espetáculo de ver Governo, autarcas e deputados do partido do Governo a puxar para si o mérito dos feitos (obras e infraestruturas) e dos desfeitos (ambientais), numa tentativa de conseguirem benesses de resultados eleitorais, sem ter em conta que em bom rigor tem sido a oposição a conseguir por interesse público estes feitos.

Já o disse aqui por diversas vezes que Portugal não pode ser gerido apenas com objetivos eleitorais. Tem de haver critério, razoabilidade e normalidade nas tomadas de posição. Não podemos ter um Governo cata-vento, que vai tomando decisões para logo a seguir as corrigir, conforme o vento lhe poderá correr de feição ou os interesses eleitorais o ditem.

A tentação de colocar assim os assuntos na esfera política, como que resolvidos é grande, pois a ‘cultura do frenesim eleitoral’ assemelha-se a uma estratégia básica de tempos idos nas técnicas de combate político, mas que mais não é do que a assunção da derrota dos próprios. E a questão é mesmo esta, pois quem mais critica, denigre e semeia tempestades, evitando o debate público, é também quem mais busca o poder e parece mais interessado em mantê-lo ou conquistá-lo. Sejamos sérios, senhores: Portugal estará sempre acima de qualquer eleição…

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O atraso português

O Jornal Económico - 5 ore 44 min fa

A Comissária Europeia para a Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, afirmou há poucos dias que “é penoso ver que Portugal, com estes anos todos de apoio, ainda está entre os países atrasados”. Partilho inteiramente dessa sua opinião. Talvez a senhora Comissária possa questionar a militante do Partido Socialista e ex-ministra do Planeamento nos dois governos liderados por António Guterres, Elisa Ferreira, sobre as razões para esse mesmo atraso.

Muito recentemente, pelo menos uma dessas razões ficou em evidência; Pouco depois do dia 16 de Junho, imortalizado agora para sempre nos calendários pela pergunta do primeiro-Ministro António Costa à presidente da UE, Ursula von der Leyen, sobre se já poderia ir ao banco, foi publicado um artigo revelador. De acordo com esse mesmo artigo, e tendo como base uma análise dos peritos da Delloitte, Portugal fica atrás de Itália, França, Espanha e, inclusive, da Grécia, quanto ao impacto dos Planos de Recuperação e Resiliência para o crescimento do PIB nos respetivos países.

Com efeito, segundo a simulação efetuada pelos serviços da Comissão, o nosso PRR tem um potencial de entre 1,5% a 2,4% para aumento do PIB até 2026, enquanto o impacto do PRR da Grécia é avaliado entre 2,1% e 3,3% para o mesmo período. Que mais nos separa dos Gregos? Uma diferença fundamental quanto ao destino das verbas na repartição entre o Estado e o setor privado. De acordo com uma análise comparativa efetuada pelo vice-presidente da Câmara de Cascais, Miguel Pinto Luz, o nosso PRR dedica 62,5% das verbas para o setor público, o grego apenas 33%. Por outro lado, a perspetiva é a da geração de 200 mil novos empregos no caso grego e de apenas 50 mil para o caso português.

Finalmente, mas não menos despiciendo, temos no nosso PRR um movimento contraditório quanto áquilo que são as metas europeias ao nível ambiental e, também aqui, isso provoca um impacto negativo na competitividade.

Segundo uma muito recente análise do Instituto Bruegel, um think tank europeu especializado na análise económica das políticas europeias: “Portugal é dos países onde a componente ambiental tem menos peso nas escolhas dos projetos a executar com o dinheiro do fundo de recuperação europeu”. Na verdade, no que toca à transição ambiental Portugal aparece no fim da tabela, com os investimentos nesta área a pesarem apenas 24,4% do plano global. Como divulgou há dias o jornal ‘Público’: “O peso de 24,4% dos projetos nesta área divide-se entre o 1.º pilar (ambiente) com 9,5% do total, o 1.º e o 3.º (crescimento sustentável) com 12,57% e o 1.º e o 5.º (saúde e resiliência) com 2,34%”.

Em suma, bem pode a Comissário Elisa Ferreira manifestar o seu pesar sobre o constante atraso português. Mas é importante que se note que é o partido a que pertence o maior responsável pelo desperdício das oportunidades para o contrariar e inverter.

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‘Customer Experience’ em contextos de elevada incerteza

O Jornal Económico - 5 ore 45 min fa

Terá a pandemia obrigado as empresas a empreender numa nova forma de Gerir a Experiência dos seus Clientes? Será que estamos perante um caso clássico de “antes” e “depois” de uma catástrofe?

Gerir a Experiência dos Clientes vive refém das necessidades e expectativas dos Clientes. A equação é bastante simples: se cumprirmos as expectativas dos Clientes teremos Clientes Neutros; se ficarmos aquém dessas expectativas teremos Clientes frustrados, potencialmente detratores; só quando superamos as expectativas e necessidades dos Clientes é que os começamos a fidelizar. Por isso, a Gestão da Experiência dos Clientes obriga-nos a compreender profundamente quais são as necessidades e expectativas.

A pandemia provocou um abalo significativo naquilo que são as prioridades e as necessidades da esmagadora maioria dos Clientes. O que leva à questão: “Como Gerir a Experiência de Clientes em temos de elevada Incerteza!?”.
Com base em situações do passado, podemos separar as Boas Práticas na Gestão da Experiência de Clientes em contextos de elevada incerteza em 2 níveis:

 

1. Gestão (Incerteza rima com Flexibilidade)
a) Reavaliação permanente das Prioridades – Num contexto onde tudo muda permanentemente, não nos podemos fixar a dados do passado. Temos que nos focar nas novas necessidades e expectativas apresentadas pelos nossos Clientes diariamente.
b) Flexibilidade e Rapidez de Resposta – Precisamos construir uma organização ágil e flexível, que consiga responder a novas necessidades em tempo oportuno. O que se revela prioritário hoje, pode voltar a deixar de o ser amanhã.
c) Abordagem por Pilotos e Protótipos – Esta nova realidade recomenda uma abordagem com Soluções simples de desenvolver, para que possam ser rapidamente apresentadas ao mercado e melhoradas “em andamento”.
d) Mobilização das Pessoas | Papel determinante das Lideranças – Neste contexto, as Pessoas assumem um papel determinante porque são estas que, no final, acabam por fazer a diferença.
2. Operacional (na frente do Cliente existem 4 competências que se revelam absolutamente essenciais)
a) Escuta Ativa – A capacidade de escutar efetivamente cada Cliente, fazendo com que este se sinta escutado.
b) Empatia – A capacidade de me “colocar nos pés” do meu Cliente, fazendo com que este sinta que o estamos a sentir como ele se está a sentir.
c) Resiliência – A capacidade de me voltar a pôr de pé depois de ter acabado de dar tudo de mim ao Cliente anterior, fazendo com que cada Cliente sinta que me estou a dedicar de corpo e alma ao seu caso concreto.
d) Orientação para a Solução – No final do dia, as pessoas procuram-nos porque têm uma necessidade e precisam de uma solução. Será a nossa capacidade de encontrar soluções para problemas que nunca tinham surgido antes que determinará a memória que o Cliente irá guardar de nós.

Recordemos que tempos de elevada incerteza, apesar de desafiantes, constituem excelentes oportunidades de fidelizar Clientes. É nos momentos difíceis que os Clientes nunca se irão esquecer de quem lá estava para os ajudar naquilo que mais necessitavam.

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Entre neutralidade e cobardia

O Jornal Económico - 5 ore 47 min fa

Duas situações ocorreram esta semana que, por coincidência, se refugiaram por detrás da palavra “neutralidade” de forma a fugirem às suas responsabilidades morais e éticas.

Na sequência de uma recente lei húngara que proíbe a divulgação de conteúdo a menores que mostre ou promova a mudança de género ou a homossexualidade, com o argumento de proteger crianças de pedófilos, a cidade de Munique quis iluminar com as cores do arco-íris o estádio onde decorre a partida Alemanha-Hungria. A UEFA recusou autorizar essa demonstração solidária com o argumento de ser uma “organização neutra no campo religioso e político”.

Na sequência da mesma legislação húngara, 13 Estados-Membros subscreveram uma carta a condenar a lei que discrimina população LGBTQI+ pelo Parlamento da Hungria e a apelar à intervenção da Comissão Europeia. De acordo com a Secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Portugal não se associou à iniciativa porque “tem de se comportar como um mediador imparcial, e assumir um dever de neutralidade”.

Quando invocado, o princípio da neutralidade pressupõe que a entidade que o invoca se irá abster de participar em quaisquer controvérsias de teor ideológico, religioso ou racial, mantendo-se à margem das hostilidades de forma a ganhar a confiança do público. Mas será que o interesse público está realmente a ser aqui defendido?

Comecemos pelo futebol, esse negócio bilionário que move tantas paixões à volta do mundo.

Quando organizações como a Cruz Vermelha ou Médicos Sem Fronteiras se mantém leais ao dever de neutralidade em cenários de guerra, intuimos que a falta de neutralidade pode colocar as vidas de inúmeros civis em risco. Ao decidir não permitir este ato político, a UEFA está a mandar a mensagem oposta de ser indiferente às vidas que podem ser colocadas em risco por discriminação. O desporto sempre jogou um papel vital na promoção de diversidade e tolerância, mas já há muito tempo que a UEFA escolheu descartar esse papel. Que melhor exemplo do que permitir um torneio mundial no Qatar? O mal-estar irá agravar-se ainda mais com o Mundial 2022, tornando insustentável o desligamento entre futebol de alta competição e política, colocando os próprios clubes, jogadores e adeptos numa situação de cumplicidade com violações de direitos humanos.

Permanecer neutro perante estes casos de violações e desrespeito pelos princípios básicos da democracia torna-se moralmente repreensível, especialmente quando permite que certos grupos se tornem ainda mais vulneráveis a hostilidade, perseguição e agressão permanente. Alguém duvida que a legislação húngara irá apenas incentivar ainda mais violência ao equiparar homossexualidade a pedofilia?

Às vezes, na tentativa de sermos diplomáticos demais, de forma a não desestabilizar o barco, permitimos que a porta se abra a atrocidades. A História já se encarregou muitas vezes de nos mostrar que esse caminho é errado. Sermos neutros “é o preço a pagar”, diz a Secretária de Estado dos Assuntos Europeus. Quem vai pagar o preço pela passividade não é Portugal, mas todos os que são alvo de hostilidade no seio da União Europeia. Se deixarmos o cancro da intolerância alastrar, sabemos qual será o fim inevitável.

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Shame on you, UEFA

O Jornal Económico - 5 ore 50 min fa

A 12 de Junho, Christian Eriksen, jogador da Selecção de futebol da Dinamarca, caiu inanimado em campo, durante o jogo do Euro 2020, com a Finlândia. Um episódio dramático, com cobertura televisiva, que exibiu imagens do jogador, inerte no relvado, enquanto as equipas médicas tentavam a sua reanimação. Os colegas de equipa ordenaram-se, de imediato, para minimizar o aproveitamento mediático. O realizador justificou estar autorizado a “captar a emoção”.

O contexto pandémico enfatizou a noção de respeito pelo outro. Uma doença, uma patologia, um episódio como o vivido por Eriksen, expõe a fragilidade da pessoa, num momento que se impõe subtrair da curiosidade do público, porque reservado e íntimo. Divulgar – ainda que sob a égide do direito de informar – a vulnerabilidade alheia constitui, além de um comportamento moralmente reprovável, um facto antijurídico, porque destituído de título normativo habilitante. Captar a imagem de um jogador antes, durante ou depois de uma partida de futebol, não tem equivalência material com o acto de captar e divulgar a imagem da pessoa que permanece inanimada em campo. Em situações como esta, a publicidade (autorizada em cenários de “normalidade desportiva”), tem de ceder perante a regra geral da reserva e do recato, sempre que alguém é protagonista por razões distintas daquelas que lhe dão notoriedade, e de natureza extraordinária. A curiosidade dos espectadores não pode equivaler a um interesse geral, que legitime desvios à directriz da abstenção de ingerir na esfera jurídica alheia, em particular, quando estão em causa bens da personalidade. Num tempo em que se enaltecem valores fundamentais – como o respeito pela privacidade –, a partilha a que se assistiu, com planos do jogador e da família, com a inerente devassa da intimidade, envergonha. A saúde é um dado sensível, por natureza, reservado. O sofrimento alheio não pode ser explorado com propósitos especulativos. Esta asserção impõe-se sempre que inexista um fundamento material para a publicidade do acto, isto é, um interesse digno de tutela pelo Direito. Foi esta a lição que a Selecção da Dinamarca deu, ao formar um “escudo humano”, para proteger a privacidade de Eriksen.

Entretanto, o jogo foi retomado, no próprio dia. Assistiu-se a uma Dinamarca “anestesiada”, perturbada pela memória recente dos acontecimentos vividos em campo, e pela incerteza do futuro próximo de Eriksen.

Num tempo em que a força maior, a justa causa e a inexigibilidade da prestação fundamentam a adequação dos vínculos, impunha-se uma atitude distinta por parte da UEFA. A decisão de continuar o jogo não assentou num acto de consentimento esclarecido e livre dos jogadores.

O futebol exige técnica, assim como arte, para oferecer a prometida magia; pressupõe o concurso da razão e do coração, a proclamada unidade entre corpo e alma. Uma competição profissional não prescinde de uma pauta valorativa exigente, e da vinculação a regras jurídicas, que têm de ser observadas por todos, incluindo as Instituições, como o organismo de governação do futebol europeu. A censura à UEFA justifica-se, pois, por três motivos: pela ingerência tolerada na imagem e na privacidade de Eriksen; pela decisão de retomar o jogo no próprio dia; pela ausência de retractação. É em momentos difíceis e desafiantes que surge a oportunidade de fazer bem e diferente. A UEFA errou, e não se penitenciou. Shame on you, UEFA.

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O poder de um discurso da Reserva Federal

O Jornal Económico - 5 ore 52 min fa

O discurso de Jerome Powell, presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, na passada semana, ainda que sem o dramatismo dos grandes discursos de Winston Churchill e desprovido das certezas inabaláveis de Mario Draghi, tem profundas implicações para os bancos e para as pequenas economias, como é o caso da portuguesa.

Powell sinalizou uma dupla subida das taxas de juro diretoras em 2023, quase um ano antes do estimado pelos analistas até há uma semana atrás. Uma subida ínfima, notarão alguns observadores, mas ainda assim uma subida que não foi antecipada. Subida essa que ocorrerá com a possibilidade de a inflação, nos Estados Unidos e na União Europeia, ser mais alta que o antecipado e a recuperação económica mais forte, com isso pressionando no sentido da retirada, paulatina, dos programas de compras de ativos.

Um pouco por todo o mundo, os bancos têm vindo a normalizar a sua política de provisões, ajustando-as em montantes similares ao estádio prévio à pandemia. Uma normalização que tem vindo a libertar parte das vultuosas provisões que tinham constituído.

A subida das yields das obrigações dos Tesouros e das taxas diretoras, por um lado, e a normalização das políticas de provisões, por outro, são boas notícias para os bancos, nomeadamente os europeus, duramente fustigados por taxas negativas. Aliás, um primeiro reflexo disso têm sido as intensas valorizações acionistas, ocorridas desde meados de abril.

Há, portanto, alterações em curso que são boas notícias para os bancos cujos centros de decisão se situam em Portugal. E são boas notícias extensíveis à economia portuguesa no seu todo, pois em conjunto significam que, por fim, se interrompe o processo de destruição de capital ou de baixa rendibilidade dos bancos, tornando-os mais disponíveis para o pleno exercício da função creditícia.

Se isto não bastasse, o normal funcionamento dos preços do mercado do dinheiro (juros) produz um reforço da capacidade de aforro, viabiliza o exercício de poupanças de longo prazo e de sistemas de capitalização de previdência, e uma melhor afetação de recursos no mercado de crédito. Mais boas notícias, portanto.

Não deixa de ser irónico, contudo, que a valorização de quase 30% no valor das ações dos bancos não tenha que ver com exercícios de eficácia (produtos ou serviços inovadores, por exemplo) ou de otimização de eficiência, mas mais, muito mais, derivada do discurso de Jerome Powell, da campanha de vacinação e de normalização económica.

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Marcelo e o seu sangue

O Jornal Económico - 5 ore 53 min fa

Marcelo Rebelo de Sousa escreve com a mão esquerda e a direita e ainda consegue ditar discursos ao mesmo tempo. Era o brincalhão que tocava às campainhas para acordar pessoas. É a melhor fonte dele próprio, continua com o mesmo veneno dos dias em que colaborava com o “Expresso” e a perder imenso tempo a falar com jornalistas e a influenciar notícias e primeiras páginas, aliás, quem não percebe isto é ingénuo.

Tem uma capacidade inata de dizer uma coisa e o seu contrário em poucos minutos, tal como após uma graçola quase infantil tem o supremo prazer de ser frio e pontiagudo como um estilete para destruir alguém (agora em privado). Pode tentar fabricar a sua imagem, mas a própria força institucional da Presidência da República não lhe dá a gravitas para apagar o eterno e emérito papel de criador da vichyssoise que nunca existiu. Como me dizia uma pessoa que muito considero e que o conhece bem, em suma, “um troca-tintas”. Um homem de duas caras.

Está no segundo mandato, época em que, tradicionalmente, Belém afia as facas, acelera atritos com São Bento e se causa desgaste ao primeiro-ministro. Marcelo nunca seria excepção. O pontapé de saída da crise larvar deu-se com as questões relacionadas com a travagem, ou não, do desconfinamento, onde a céu aberto ambos mostraram caminhos opostos, parecendo até mais responsável perante a situação António Costa do que o inquilino de Belém.

Contudo, onde Marcelo exibiu claramente ao que vem neste mandato foi no encerramento da conferência do Tribunal de Contas. Na plena posse das suas faculdades de cínico, garantiu que até 2023 fará tudo para evitar crises políticas e institucionais que prejudiquem a aplicação dos 16,6 mil milhões de euros da bazuca europeia, mas também na posse das suas faculdades de assassino profissional afirmou: “Cabe aos portugueses dizerem pelo seu voto em 2023 o que pensam e o que querem acerca do uso da oportunidade a não desperdiçar, sendo certo que vão a tempo de escolher continuar o mesmo caminho ou fazer caminho com alterações de 2024 em diante”. Mais claro é impossível.

Rapidamente uma relação institucional de quase osmose entre PR e PM deu lugar à faísca de quem quer trabalhar para o seu legado, sobretudo no que toca ao futuro do centro-direita em que Marcelo quer pôr e dispor. Tentou ajudar na sombra Montenegro, deu gás a Carlos Moedas em Lisboa, porém a campanha tornou-se caricatural por erros próprios do candidato. Tudo isto para soterrar Rui Rio, que considera uma figura menor e quase ridícula, um mero amanuense, e criar muros para o reaparecimento de Pedro Passos Coelho que sempre destratou quando comentava na TVI.

No “Trono de Sangue” do Akira Kurosawa, a melhor adaptação de Macbeth de Shakespeare ao cinema, ouve-se: “Para não se ser morto, é necessário matar primeiro”. Marcelo precisa de eliminar potenciais sombras para tentar perpetuar o seu papel. O azar dele é que selfies e abracinhos têm prazos de validade curtos e não é isso que o tirará de um minúsculo rodapé da história. Tinha duas vias possíveis: a de líder ou de brincalhão hipocondríaco. Marcelo, o homem que entra nas farmácias a perguntar por novidades de comprimidos e xaropes, ficou carimbado por esta segunda via. Afinal, é o que lhe está no sangue.

 

O autor escreve segundo  antiga ortografia.

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Não posso ir ao banco!

O Jornal Económico - 5 ore 55 min fa

Assiste-se a uma discussão se a subida acentuada da inflação é temporária ou permanente/ estrutural.

Os Bancos Centrais estão a tentar convencer os agentes económicos que a mais recente subida de inflação, que nos EUA se aproxima dos 5%, é transitória e que por isso não têm porque alterar a sua política de taxas de juro zero ou negativas, no caso europeu.

O imposto inflação é provavelmente o pior imposto de todos com porque afecta os agentes com menor literacia financeira. Quando os preços sobem e os rendimentos estão estagnados, significa que podemos comprar menos bens e serviços. Para manter o mesmo nível de consumo há que recorrer às poupanças, o que acaba por afectar a sustentabilidade das nossas finanças a longo prazo. Apenas os agentes económicos com conhecimentos conseguem tomar decisões de aplicação das suas poupanças que mitiguem este “imposto”.

Mas o pior é que esta inflação tem toda a cara de ser muito mais do que temporária. Basta analisarmos a evolução dos preços da electricidade no mercado ibérico, do gás e do petróleo e verificamos subidas constantes. Se contabilizarmos os custos de implementação de medidas de sustentabilidade na economia, então termos subidas de preços estruturais nos próximos anos à medida que a agenda de 2030 se concretiza. Não podendo as empresas absorver o aumento dos custos de energia ou de implementação do ESG, só resta o consumidor a pagar.

Ora não deixa de ser irónico que o vice presidente do BCE, Luis de Guindos, tenha vindo alertar que a inflação pode ultrapassar os 3%, face aos 2% de meta do BCE, e ameaçado que caso os salários e pensões subissem na mesma proporção, ou seja sofressem uma atualização de 3%, que o BCE poderia ter de retirar estímulos monetários.

A política monetária está agora a lançar os seus tentáculos à política orçamental e fiscal do qual os Estados ainda conseguem ser soberanos, e percebe-se o preço a pagar pelo apoio do BCE – perda de independência.

No fundo quem está a financiar a retoma são as camadas da população mais desfavorecidas, completamente expostas ao efeito da inflação e sem capacidade de proteção por via dos mercados financeiros ou mercado imobiliário.

Nesse sentido, diferença na opção de distribuição de dinheiro entre americanos e europeus, vai marcar a diferença no crescimento do PIB nos próximos anos. Enquanto que os americanos receberam cheques ou transferências bancárias e puderem ir ao seu banco levantar e gastar no que queriam, os europeus são obrigados a assistir ao triste espectáculo de políticos e agências nacionais a decidirem como gastam o dinheiro da ’bazuca’, violando quase diariamente as políticas de conflitos de interesse e as melhoras práticas de gestão.

Nem com 14 mil milhões de euros adicionais do Plano de Recuperação e Resiliência vamos lá.

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A economia e o futebol

O Jornal Económico - 5 ore 56 min fa

Neste período que vivemos é inevitável falar de futebol! Perdoem-me os entendidos a minha ignorância, mas acho que há alguns factos que são óbvios e que revelam muito acerca dos portugueses.

Daquilo que consigo entender e do que ouço dos especialistas lá de casa, temos, do ponto de vista de jogadores individuais, uma das duas ou três melhores seleções europeias. Se isto é assim, a nossa superioridade deveria ser esmagadora. Não devíamos sofrer quatro golos da Alemanha, nem estar ansiosos à espera do jogo com a França (por alturas da escrita desta crónica ainda não sei o resultado…) para saber se passámos da fase de grupos. Certo que calhámos no grupo da morte, mas pelo menos um excelente terceiro lugar dever-nos-ia garantir a passagem.

No meu entendimento de leiga, o nosso problema tem a ver com falhas do ponto de vista de sistema organizativo. Falta-nos liderança, estratégia e organização. Falta-nos a capacidade para potenciar os talentos individuais e garantir que a soma é maior do que as partes. É assim no futebol e é assim na economia. Temos engenheiros de primeira qualidade, temos técnicos informáticos (e não só) fabulosos, temos enfermeiros que se destacam por este mundo fora, em suma, temos trabalhadores de excelência em áreas qualificadas. Mas a verdade é que temos sistematicamente baixas produtividades e somos genericamente pouco competitivos. Mais, quando estes mesmos trabalhadores (e até os não tão qualificados) são postos a trabalhar sob uma direção alemã (por exemplo) ou são postos a “jogar” lá fora, funcionam muitíssimo bem em coletivo, com elogios rasgados das organizações e dos seus diretores. Andámos há anos a tentar convergir com a Europa e estamos sempre na cauda. Só melhoramos a nossa posição quando entram no ranking mais países menos desenvolvidos do que nós, nunca por nos aproximarmos do topo.

Tivemos acesso a um volume substancial de fundos e financiamento ao longo das décadas de 80 e 90, e embora tenhamos dado um salto evolutivo enorme (nomeadamente em termos de educação formal), continuamos longíssimo da Europa desenvolvida. Fizemos opções duvidosas, não industrializámos, apostámos em não transacionáveis, e coletivamente continuámos a não ser superiores. Agora vamos tornar a ter acesso a uma “bazuca financeira”, que nos pode ajudar a dar o tal salto coletivo.

Sei que não é um problema fácil de resolver e que muitas das soluções só são possíveis no médio e longo prazo. O desenvolvimento de determinadas competências tem de ser feito via educação e a mudança de paradigma cultural só se faz de forma lenta. Mas temos que identificar bem o problema e procurar as soluções já.

Com excelência individual não deve ser possível continuarmos a tremer perante a Alemanha. Não podemos ter mais uma oportunidade perdida. E sobretudo, não podemos estar sempre à espera que tenhamos um Eder para marcar o golo da vitória aos 109 minutos de jogo.

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